Renan interrompe sessão de votação do impeachment

A histórica sessão no Senado Federal para votar a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff começou com 2h17m de atraso e com um apelo do presidente da Casa, Renan Calheiros, que pediu serenidade durante a votação. Logo depois, em meio a questões de ordens negadas na sua maioria a senadores governistas, contribuiu para o atraso na audiência. Antes do intervalo proposto por Renan, cinco parlamentares dos 68 inscritos até o momento, se manifestaram a favor do impeachment.  A expectativa é que a sessão retorne ás 13h30.
ORADORES FALAM APÓS QUESTÃO DE ORDEM
A senadora Ana Amélia (PP-RS), primeira inscrita, começou seu discurso.Ela defendeu o relatório do senador Antonio Anastasia, e citou o Papa Francisco ao pedir “paz e harmonia” para o Brasil nesta quarta-feira. Ana Amélia afirmou que hoje o senado é uma ‘tribunal político’, e disse que esse ‘não é um momento feliz’, mas que entende que a presidente cometeu crime de responsabilidade fiscal.
– Esse julgamento não é um momento feliz, assim como não foi a votação da véspera, que cassou o mandato do senador Delcídio do Amaral – disse a senadora, que criticou a condução da política econômica pelo governo Dilma e fechou sua fala declarando que vota ‘sim’ pelo afastamento temporário da presidente.
Antes do início da fala do senador José Medeiros (PSD-MT), o senador Paulo Paim (PT-RS) pediu a palavra e propôs reduzir o tempo de fala de 15 minutos para 10 minutos, diminuindo assim o tempo previsto da sessão.
José Medeiros, segundo orador, anunciou seu voto a favor do afastamento de Dilma e disse que a teoria de golpe “não pára em pé”.
– Foram falar de golpe até com o Papa Francisco. Esse discurso de golpe é o novo episódio de irresponsabilidade institucional do governo. É uma falácia esse argumento. Uma cortina de fumaça – disse Medeiros, que elogiou o parecer do relator Antonio Anastasia:
– De forma cabal, o relatório do senador Anastasia demonstrou o crime cometido pela presidente. Chegamos a essa conclusão não de um dia para o outro. Não fomos açodados. Declaro que vou votar pelo afastamento da presidente.
Logo depois o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), terceiro inscrito, começou sua fala. Ele também votou pelo afastamento de presidente e disse que Dilma ‘ perdeu todas as oportunidades’, além de dizer que a presidente sofre de ‘teimosia, inépcia e irresponsabilidade’.
Ele também criticou o presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão, que na segunda-feira chegou a anular a votação do impeachment na Câmara, mas horas depois resolveu voltar atrás. Ele chamou Maranhão de ‘figura bizarra’, e disse que a manobra ‘cobriu-se de ridículo’.
A quarta a falar foi a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP). Uma das fundadoras do PT, ela deixou o partido no ano passado, após romper com o governo. Ela também votou pelo afastamento da presidente Dilma, e disse que essa é a hora de democracia, governabilidade e corte de gastos, e criticou a gestão das finanças públicas no governo Dilma.
O quinto senador a falar foi Ataídes Oliveira (PSDB-TO), que também votou pelo afastamento da presidente. Ele afirmou ter convicção de que Dilma cometeu crime de responsabilidade, e faz várias críticas ao atual governo.
– O meu voto, evidentemente, para o bem desse país, é sim. Nosso país hoje perdeu a moral, perdeu a credibilidade nesse governo, nós perdemos tudo – disse o senador.
SENADORES GOVERNISTAS TENTAM ADIAR VOTAÇÃO
Antes de começarem os discursos dos 68 inscritos para falarem durante a sessão, senadores governistas pediram a questão de ordem para tentar adiar a votação. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) foi a primeira. Ela pediu a suspensão da votação do pedido de impeachment até manifestação do STF em relação ao mandado de segurança impetrado pela AGU, na terça-feira. Logo depois o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) argumentou que a questão de ordem apresentada pela senadora já havia sido resolvida anteriormente, e afirmou que se trata de “manobra procrastinatória”.
Renan negou a questão de ordem de Gleisi, alegando, entre outros pontos, a separação de poderes. Refutou ainda um dos argumentos que tinham sido apresentados por Gleisi, de que o processo do impeachment começou com um ato de vingança do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), adversário de Dilma. Ele embrou que, depois disso, mais de dois terços dos deputados deram aval para que o processo continuasse.
– Sequer se sabe se (o STF) acolherá as razões da senhora da presidente da República – concluiu Renan.
O senador Lindberg Faria (PT-RJ), também pediu a nulidade do relatório de Antonio Anastasia (PSDB-MG), aprovado na sexta-feira. Ele afirmou que o relatório do senador é inepto por não apresentar a justa causa do recebimento da denúncia. E também afirmou que três autores citados por Anastasia o desautorizaram a fazê-lo e que acusaram o senador tucano de ter dado outra interpretação ao tema.
– Não houve citação fora do contexto – disse Anastasia.
Após as duas declarações, Renan Calheiros indeferiu a questão de ordem de Lindberg. Apesar disso, os parlamentares governistas continuaram a pedir o adiamento da votação. Após o pedido feito pelo senador Lindberg Farias, a as senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Fátima Bezerra (PT-RN) questionaram o relatório do senador Anastasia. Em resposta, o senador Alvaro Dias (PV-PR) pediu a palavra e criticou as falas dos governistas, que chamou de ‘matérias vencidas’.
O senador Lindbergh Farias ainda voltou a pedir a suspensão do processo. Em resposta, o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) chamou de “litigância de má-fé” a decisão de recorrer ao STF, e pediu que comecem as falas dos inscritos.
Antes de chamar a senadora Ana Amélia, primeira inscrita para falar na sessão, o presidente da Casa concedeu ainda a palavra aos senadores Paulo Rocha (PT-PA) – que lembrou que as questões de ordem são previstas no regimento e são um direito dos parlamentares e negou que os governistas estejam procrastinando – e ao senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), que pediu o início do processo.
BRINCADEIRA COM RADIALISTA
Antes do início dos discursos no plenário, Renan Calheiros, num tom informal e amistoso, queixou-se que uma jornalista da rádio Itatiaia, de Minas Gerais, estava incomodando a sessão com seu tom de voz alto na transmissão. A radialista, Aparecida Ferreira, estava transmitindo a sessão da galeria, destinada a cobertura dos jornalistas.
– Sua voz é tão vibrante que está ecoando mais aqui no plenário do Congresso do que minha voz. Sua voz tonitruante – disse o senador.
Os outros parlamentares riram da situação. E Aparecida, com as mãos juntas, fazia um gesto de pedido de desculpas.
Por: O Globo

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