Tradição leva comunidade quilombola de Viseu, no Pará, a ganhar título nacional

A imagem de São Benedito mora na casa de Creuza e lá recebe homenagens dos devotos. Festividade realizada em honra ao santo padroeiro mobiliza os mais antigos para tocar tambor. (Foto: Thais Rezende/ G1)

A tradição secular de tocar tambor para São Benedito levou a comunidade João Grande, em Viseu, no nordeste do Pará, a conquistar a certificação de “Comunidade Quilombola”, reconhecida oficialmente pela Fundação Palmares, entidade vinculada ao Ministério da Cultura (Minc) no último mês de abril. Após o reconhecimento, os descendentes de escravos que fugiram de fazendas no Maranhão vivem a expectativa de melhorias para a comunidade, sem deixar sua identidade e costumes para trás.

O reconhecimento se deu através do trabalho de conclusão de curso de Raimundo Gonçalves, antigo aluno de História do Plano Nacional de Formação de Professores (Parfor) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Com o tema “Entre o tambor e a aparelhagem: mudanças sonoras na Festividade de São Benedito de João Grande – Viseu (década de 1980)”, o estudante, que é professor da rede municipal do município, contou a história desse povo.

A comunidade fica localizada a 6 km de Viseu e nela vivem cerca de 60 famílias, que realizam uma tradicional atividade religiosa entre os dias 20 a 27 de dezembro em homenagem a São Benedito, santo padroeiro do lugar. De acordo com o historiador, é impossível dizer exatamente quando começou a festa, mas os registros mostram que já dura mais de dois séculos e que a imagem de São Benedito das Flores foi trazida por negros que vieram do Maranhão.

Creuza Maria Lopes, de 50 anos, é a “dona” do São Benedito. Segundo a tradição, ela tem a guarda da imagem em sua casa e recebe muitos visitantes de várias regiões. Nascida e criada em João Grande, a devota espera conseguir construir um altar com grades de proteção para o santo.

“Eu fui a herdeira de São Benedito, ele era dos meus bisavós e ficou para os seus descendentes. Não posso abandonar o São Benedito, só quando Deus precisar de mim, vivo aqui com ele nesta humilde casa. A imagem deve ter uns 300 anos. Há dois anos fizemos uma restauração”, conta Creuza.

Grupo se reúne para tocar tambor por dias durante a Festividade de São Benedito. Rimas são feitas de improviso e abordam o dia a dia e religiosidade.

Grupo se reúne para tocar tambor por dias durante a Festividade de São Benedito. Rimas são feitas de improviso e abordam o dia a dia e religiosidade.

Toque do tambor

Viseu tem outras comunidades negras e antigas que apresentam as mesmas características de João Grande, mas é ela umas das poucas que manteve o tambor como marco identitário.

De acordo com o professor Raimundo Gonçalves, “a festa na vila passou por um processo de transformações, mas os seus moradores tentam manter as tradições e suas raízes históricas, fazendo uso da oralidade para repassar seus conhecimentos e suas praticas para futuras gerações como forma de continuidade da tradição”. Quando a festa começou, dançava-se o retumbão, mazurca e o chorado, depois foram introduzidos a valsa e o xote. Atualmente, outros ritmos fazem parte da festa.

João Cardoso, 72 anos, é um dos tocadores de tambor. Apesar da idade, ele conta que começou com a prática há apenas 13 anos. “Meu pai cantava, meus tios. Eu tinha obrigação de aprender. Não é difícil, o mais importante é ter ajudante… Aí a batucada entrosa e dá vontade do camarada que nunca dançou no tambor, dançar”, brinca Cardoso.

Os moradores relatam que antes a festa durava sete dias só no tambor, tinha as bailarinas, a rodada de café com doce para os participantes e a comida era de graça. Alguns aspectos foram mantidos, como o almoço, as emboladas cantadas aos visitantes da festa, o mastro como símbolo do evento, além da ladainha feita pelas rezadeiras de São Benedito.

Comunidade de João grande tem uma igrejinha onde acontecem as rezas. (Foto: Thais Rezende/ G1)

Comunidade de João grande tem uma igrejinha onde acontecem as rezas. (Foto: Thais Rezende/ G1)

Reconhecimento

“O professor Raimundo estava envolvido diretamente na comunidade, percebeu a necessidade de pensar para que a tradição do município não fosse perdida pela introdução de outras praticas e cultos, principalmente pelo som das aparelhagens, que em um primeiro momento estaria distanciando os jovens”, explica o orientador da monografia, professor Dr. Cleodir Moraes, da UFPA.

Ao terminar o curso, o Raimundo chegou a ganhar um prêmio de incentivo à pesquisa pela Fundação Cultural do Pará. Mas, inquieto com a falta do título de quilombola, voltou a procurar o professor Cleodir, que lhe orientou a buscar a Fundação Palmares com um dossiê a partir da pesquisa da monografia defendida com conceito excelente.

“Quando ele pesquisou sobre o evento, congrega como um passado e remontava do final do século XIX para perceber que existia uma comunidade ali há algum tempo, constituída e que precisava hoje ter reconhecimento oficial”, pontua Cleodir.

O vice-presidente da Associação Quilombola de João Grande, Artenis Machado, explica que a comunidade tem muitas expectativas após o reconhecimento. Além do apoio municipal, recursos devem ser aplicados para melhorias estruturais nessa comunidade tão rica de história e cultura, mas que não tem as vias pavimentadas e ainda vive de uma agricultura e pesca rudimentar além do extrativismo vegetal.

“No momento a gente está procurando saber como podemos proceder. Tem pessoas que estão nos ajudando, estamos tendo ajuda do poder público do município, ainda vamos em Belém para o Incra demarcar as terras. Estamos tentando seguir em frente, arranjar fundos para fazer várias coisas, a escola é uma delas”, afirmou Artenis.

Apesar dos desafios, a alegria do povo contagia os visitantes. Os costumes, crenças e receptividade tornam João Grande um lugar inesquecível e cheio de memórias.

Fonte: g1 pará

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